Entrelaçadas

Em que momento você deixou de ser você?

Talvez você não saiba responder a essa pergunta.

Eu também não saberia.

Porque ninguém deixa de ser quem é de uma hora para outra. Não existe um dia marcado no calendário em que você acorda, olha no espelho e percebe que desapareceu. Isso acontece devagar, quase em silêncio.

Começa quando você deixa de falar alguma coisa para evitar uma discussão.

Depois, começa a pensar duas vezes antes de dar uma opinião. Escolhe melhor as palavras. Observa o humor da outra pessoa antes de tocar em determinado assunto. Aprende quais temas podem causar irritação e passa a evitá-los.

Quando percebe, já não está apenas escolhendo o melhor momento para conversar. Está calculando cada palavra para não provocar uma reação.

E viver assim cansa.

Cansa tentar manter a paz o tempo todo. Cansa ser sempre a pessoa que compreende, espera, perdoa e tenta conversar. Cansa precisar explicar repetidamente que você não queria brigar, que só queria ser ouvida.

Aos poucos, você pode começar a desconfiar da própria percepção.

Será que estou exagerando?

Será que sou sensível demais?

Será que deveria ter falado de outra maneira?

Será que o problema sou eu?

Essas perguntas não surgem necessariamente porque você é insegura. Muitas vezes, elas aparecem porque seus sentimentos foram questionados tantas vezes que você começou a questioná-los também.

Você continua funcionando, mas algo dentro de você mudou

Por fora, talvez ninguém perceba.

Você continua trabalhando, cuidando da casa, resolvendo problemas, respondendo mensagens e tentando manter tudo em ordem. Pode sorrir em uma fotografia e, poucas horas depois, estar sozinha tentando entender por que se sente tão triste.

Essa é uma das partes mais difíceis: a vida continua acontecendo enquanto você se perde de si mesma.

Você não deixou de ser forte. Pelo contrário. Talvez esteja sendo forte há tempo demais.

Mas existe uma diferença entre ser forte e viver em estado permanente de resistência. Entre construir uma relação e carregar essa relação sozinha. Entre fazer concessões e abandonar a si mesma para que o outro permaneça confortável.

Nem sempre é fácil perceber essa diferença quando ainda existe amor.

E, muitas vezes, existe.

Você pode amar alguém e, ainda assim, não se sentir segura emocionalmente ao lado dessa pessoa. Pode reconhecer qualidades nela e também sofrer com seus comportamentos. Pode lembrar dos momentos bons e continuar machucada pelos ruins.

Uma coisa não anula a outra.

É justamente essa mistura que torna tudo tão confuso.

Nem toda ferida deixa marcas visíveis

Quando pensamos em um relacionamento que faz mal, imaginamos situações extremas. Mas existem dores que não deixam marcas no corpo e, mesmo assim, mudam profundamente a maneira como uma mulher enxerga a si mesma.

O silêncio usado como castigo.

A indiferença depois de uma discussão.

As palavras ditas para diminuir.

A ameaça de ir embora sempre que você coloca um limite.

O controle disfarçado de preocupação.

A sensação de que precisa merecer carinho, atenção ou respeito.

Separadamente, alguns desses episódios podem parecer pequenos. Porém, quando se repetem, criam um ambiente no qual você passa a viver tentando evitar o próximo desconforto.

Você começa a se adaptar.

Fica mais quieta. Pede menos. Conta menos. Sonha menos.

Até que um dia percebe que já não sabe mais o que gostaria de fazer, o que pensa sobre certas coisas ou quem era antes de passar tanto tempo tentando caber naquela relação.

Reconhecer o que está acontecendo não obriga você a decidir tudo agora

Talvez você esteja lendo este texto e reconhecendo partes da sua própria história.

Se isso estiver acontecendo, quero lhe dizer uma coisa: você não precisa ter todas as respostas hoje.

Perceber que algo não está bem não significa que você precise tomar uma decisão imediata. Também não significa que você seja fraca por ainda amar, ter esperança ou não saber o que fazer.

Antes de qualquer grande decisão, existe um primeiro passo mais silencioso: voltar a ouvir a si mesma.

Sem se censurar.

Sem tentar justificar o comportamento de outra pessoa.

Sem diminuir o que sentiu.

Você pode começar prestando atenção em como se sente depois de determinadas conversas. Pode escrever sobre situações que a deixaram confusa. Pode observar se consegue expressar suas necessidades sem medo. Pode conversar com alguém em quem confia ou buscar apoio profissional.

O mais importante é parar de ignorar o que acontece dentro de você.

Se algo machuca repetidamente, isso merece ser olhado.

Se você sente medo de falar, isso merece ser olhado.

Se precisa desaparecer para manter uma relação, isso também merece ser olhado.

Voltar para si é um processo

Talvez você tenha passado tanto tempo priorizando as necessidades de todos que se sinta culpada ao pensar nas suas.

Mas cuidar de si não é egoísmo.

Ter limites não é falta de amor.

Desejar respeito não é exigir demais.

E querer paz não significa aceitar qualquer coisa para evitar conflitos.

Voltar para si começa em pequenas escolhas: recuperar uma amizade, retomar um projeto, organizar a própria vida financeira, cuidar do corpo, descansar sem culpa ou simplesmente reconhecer que aquilo que aconteceu realmente doeu.

Não se trata apenas de sair ou permanecer em uma relação. Trata-se de não abandonar a si mesma, independentemente da decisão que venha a tomar.

É poder chegar em casa e ser simplesmente você, sem sentir que precisa provar o tempo todo que merece o próprio lugar.

Por que nasceu o Entrelaçadas

O Entrelaçadas nasceu para ser um espaço de conversa verdadeira entre mulheres.

Não para apontar dedos ou oferecer respostas prontas. Cada história tem suas particularidades, seus afetos, seus medos e suas dificuldades.

Este espaço nasceu porque muitas mulheres estão vivendo situações que não conseguem explicar. Sentem que alguma coisa está errada, mas ainda não encontraram palavras para dizer o que é.

Aqui vamos falar sobre relacionamentos, autoestima, dependência emocional, comunicação, limites, recomeços e autonomia. Também vamos falar sobre aquelas experiências que parecem pequenas para quem observa de fora, mas pesam profundamente para quem vive dentro delas.

Quero que este seja um lugar de acolhimento, mas também de consciência.

Um espaço no qual nenhuma mulher precise se sentir envergonhada por ainda não saber o que fazer.

Se você chegou até aqui carregando perguntas, saiba que não precisa respondê-las todas agora.

Comece com uma só:

Em que momento eu comecei a me afastar de mim?

Talvez a resposta não venha imediatamente.

Mas fazer essa pergunta já pode ser o primeiro passo do caminho de volta.

Você não precisa resolver toda a sua vida hoje.

Só não precisa continuar se abandonando para ser amada.